Jubileu da Misericórdia

O Papa Francisco anunciou um Ano Jubilar extraordinário, centrado na misericórdia, que vai começar a 8 de dezembro deste ano e terminar a 20 de novembro de 2016.

Pode dizer-se que este pontificado tem sido marcado pelo anúncio do que é o “coração” do Evangelho. Antes e mais do que sublinhar aquilo a que a Igreja diz “não”, importa anunciar aquilo a que diz “sim”. As normas morais são uma consequência, mas não o primeiro anúncio. Essas normas, apesar de relevantes, por si só «não manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo» (Evangelii Gaudium, n.º 35). «Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa» (ibidem, n.º 36).

Esse “coração” é o anúncio do amor de Deus por todos e cada um: «A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho» (ibidem, n.º 114).

É neste anúncio que se procura centrar o Papa Francisco. Também o faziam os Papas anteriores: basta recordar a encíclica de João Paulo II Dives in misericordia e a encíclica de Bento XVI Deus caritas est. Mas, com frequência, a comunicação social não focava estes aspetos centrais da mensagem destes dois Papas, realçando mais aspetos de doutrina moral, em confronto com a mentalidade contemporânea.

A misericórdia não se confunde com um sentimentalismo fácil, vai ao ponto de amar os inimigos e de dar a vida, como fez Jesus. Não ignora o pecado e supõe a conversão e o arrependimento.

A misericórdia também não contraria a justiça. Esta é um seu pressuposto, uma sua medida mínima, mas ela ultrapassa-a, levando-a à plenitude. Sobre a relação entre a justiça e a misericórdia, o amor e o perdão, quem, como eu, lida com a realidade judiciária, ou quem se dedique à política ou a causas de justiça social, encontra no ensinamento dos últimos Papas palavras iluminadoras.

Disse João Paulo II, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002: «… o perdão opõe-se ao rancor e à vingança, não à justiça (…), porque não consiste em diferir as legítimas exigências de reparação da ordem violada; mas visa sobretudo aquela plenitude de justiça que gera a tranquilidade da ordem, a qual é bem mais do que uma frágil e provisória cessação das hostilidades, porque consiste na cura em profundidade das feridas que sangram nos corações. Para tal cura, ambas, justiça e perdão, são essenciais».

E diz agora o Papa Francisco, na bula de proclamação do Ano Jubilar: «Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça».

O Papa Francisco também abordou esta questão a propósito das penas e do tratamento dos reclusos. Numa carta ao presidente da Comissão Internacional contra a Pena de Morte, de 20 de março, afirmou que esta pena não permite a remissão do condenado, é expressão de vingança e não de justiça, e contraria o amor aos inimigos e a misericórdia sempre associada à justiça divina, que deve ser modelo da justiça humana. E o mesmo se pode dizer de penas que, pela sua duração, privem o condenado de projetar um futuro em liberdade, e assim o privem da esperança. Uma sociedade que não perdoa aos condenados que cumprem ou já cumpriram as suas penas – disse o Papa em Nápoles –, não é uma sociedade cristã, é uma sociedade pagã.

Proclamar um Deus misericordioso não tem, pois, implicações apenas espirituais, tem implicações socias de vastíssimo alcance. Como também disse o Papa Francisco, poucos dias depois de ser eleito, a 17 de março de 2013, «um pouco de misericórdia torna o mundo menos frio e mais justo».

 

Pedro Vaz Patto