Advento, tempo de vestir o coração

O advento é a autoestrada do natal, a porta pela qual Deus entra no mundo e eu entro no Céu, o tempo de graça em que vejo a glória de Deus e a Sua presença amororsa em roupagem humana. O dia 25 de Dezembro não é uma data cronológica do nascimento de Jesus, mas, sim, de ordem teológica e espiritual. Como viver este tempo de graça? Façamos nossa a “espera” dinâmica da raposa: “Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...” (o Princepezinho, Saint-Exupery) O profeta Baruc, na primeira leitura, faz-nos o mesmo convite: “Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e coloca sobre a cabeça o dilema da glória do Eterno”. Na carta aos Filipenses, Paulo pede que a caridade “cresça neles cada vez mais em ciência e discernimento”, para que aguardem o Senhor com um coração puro, “para a glória de Deus”.
No evangelho, de modo solene, S. Lucas situa com grande precisão o ministério de S. João Batista no contexto da história humana e da história da salvação. Há trezentos anos que Deus estava mudo, não enviando nenhum profeta ao Seu povo. Reinava o medo e o temor. A pregação de S. João Batista a todos encheu de alegria: “Foi dirigida a palavra de deus a João, filho de Zacarias, no deserto. E ele percorreu toda a região do Jordão a pregar um batismo de penitência para a remissão dos pecados”. Aqui está como se veste o coração! Pela palavra, pomos o nosso coração a bater ao ritmo do coração de Deus, para nos revestirmos dos seus sentimentos e atitudes. Na verdade, nós fomos criados à imagem do Menino que nasce na pobreza.
Jesus não é um homem divinizado, é um Deus humanado. Tomou um corpo humano, encarnou, tornou-se visível, não para ser ignorado, mas para ser conhecido, tocado, imitado, amado. É assim que nos diviniza. Pela palavra de Deus e pelo Ano Litúrgico “o Filho de Deus determinou consumar e completar em nós todos os estádios e mistérios da sua vida. Que levar à plenitude em nós o mistério da sua encarnação, do seu nascimento, da sua vida oculta e realiza-o formando-Se em nós e renascendo em nossas almas, pelos santos sacramentos do batismo e da Sagrada Escritura e fazendo-nos viver uma vida espiritual e interior escondida com Ele em Deus” (S. João Eudes). A Palavra é o GPS que nos leva a Jesus, mostrando-nos “os caminhos que temos que preparar, as veredas que temos de endireitar, os vales a preencher, os montes e colinas do orgulho a abater, os caminhos tortuosos a endireitar e as veredas tortuosas a aplanar”. Se isto acontecer, se a Igreja der sinais e os cristãos testemunho, se formos palavra viva como João Batista, “toda a criatura verá a salvação de Deus”. Muitas vezes “coisificamos” e “instrumentalizamos” a Palavra: para conhecermos e para nos instruirmos, para nos sentirmos edificados ou inspirados, ou até para apoiar as nossas ideias. Deste modo a Escritura é um livro entre outros livros. Jesus é o Filho de Deus e as Escrituras são a Palavra de Deus para nos levar ao Deus da Palavra. Ao escutarmos e comermos a Palavra, deixamos que ela encarne em nós, tornando-se carne, vida na nossa vida. O Advento ensina-nos: a ser meninos como o Menino do presépio, o primado da pobreza por livre opção, a graça da humildade, o amor aos excluídos, a alegria do louvor e da glória de Deus, do serviço fraterno à comunidade e da interpretação feliz de ser pobre por amor. Lê a Escritura como quem busca e terás a surpresa de ver que Deus que vem ao teu encontro porque te ama. Ele nasceu em palhas, para nascer nas palhas do teu coração.
António Aparício