DIOCESE DO ALGARVE - Mensagem Quaresmal 2026

Caminhemos juntos “pacientes na tribulação” (Rom 12,12)
Queridos irmãos e irmãs da amada Diocese do Algarve,
1. Ao iniciarmos o caminho da Quaresma, tempo favorável de graça e conversão, ressoa no nosso coração a exortação do apóstolo Paulo que inspira o nosso programa pastoral para os triénio 2024-2027: “Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração” (Rm 12,12). Neste ano, somos convidados a ser “pacientes na tribulação” aprendendo a viver as provações da vida à luz da fé e como oportunidade de crescimento na caridade.
2. A tribulação faz parte da condição humana. Conhecemo-la nas fragilidades pessoais, nas dificuldades familiares, nas incertezas económicas, no sofrimento dos doentes, na solidão dos idosos, nas inquietações dos jovens, nas feridas sociais que marcam a nossa região. A vida da Igreja também conhece desafios que nos pedem purificação e renovação. A Palavra de Deus recorda-nos, nestas circunstâncias, que a paciência cristã não é resignação passiva, mas firmeza confiante, sustentada pela esperança que não engana (cf. Rm 5,5).
3. Nesta Quaresma, venho convidar-vos a viver a paciência como expressão de um coração convertido. A conversão que nos é pedida não é apenas moral ou exterior; é, antes de tudo, uma conversão à escuta. Escuta do Outro, que é Deus, e escuta dos outros, nossos irmãos e irmãs.
4. O caminho da sinodalidade, que a Igreja tem vindo a percorrer, é precisamente um caminho de conversão à escuta. Escutar o Espírito Santo que fala na Palavra, na oração, nos sinais dos tempos; escutar-nos mutuamente, acolhendo com humildade e respeito a voz do que caminha ao nosso lado; escutar o clamor dos pobres e dos que sofrem. Só uma Igreja que escuta pode ser verdadeiramente missionária e sinal de esperança no meio das tribulações.
5. Escutar Deus implica reservar tempo para a oração, para a meditação da Sagrada Escritura, para a participação mais consciente e ativa na Eucaristia. Exorto cada comunidade paroquial, cada movimento ou grupo eclesial, cada família, a redescobrir a centralidade da Palavra de Deus neste tempo quaresmal e a importância central da Eucaristia na nossa vida pessoal e eclesial. A paciência na tribulação alimenta-se de joelhos, ilumina-se com um coração atento e sensível e fortalece-se em cada gesto solidário e fraterno.
6. Escutar os outros significa sair de si mesmo, vencer a indiferença, abrir espaço ao diálogo e à partilha. A sinodalidade não é uma estratégia ou um método organizativo, mas um estilo de Igreja: caminhar juntos, discernir juntos, servir juntos. Onde há escuta verdadeira, nasce a comunhão; onde há comunhão, floresce a missão.
7. Esta conversão à escuta concretiza-se nas obras de misericórdia, expressão visível de uma fé que age pelo amor (cf. Gl 5,6). Num tempo em que tantas tribulações ferem a dignidade humana, desfazem tantos sonhos, prostram tantas famílias e comunidades, duramente atingidas pelas intempéries que se têm abatido impiedosamente sobre algumas regiões do nosso País, somos chamados a praticar as obras de misericórdia corporais e espirituais: dar de comer a quem tem fome, visitar os doentes, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, rezar pelos vivos e defuntos... Cada gesto de misericórdia é um sinal do Reino de Deus que já está no meio de nós.
8. É esta motivação que nos inspira em cada Quaresma e nos leva a fazer convergir o resultado da renúncia quaresmal para situações sociais de reconhecida necessidade. Este ano destinar-se-á a constituir o Fundo Solidário Renúncia Quaresmal 2026, com a finalidade de apoiar situações de extrema necessidade, provocadas pelas recentes e sucessivas depressões. A nossa Cáritas Diocesana vai gerir este Fundo. Aliás, já iniciou esta resposta com a recolha e o envio de bens de primeira necessidade de diversa ordem, cerca de onze toneladas, em coordenação com a Cáritas de Leiria. Apelo à generosidade de todos, como expressão de um caminho pessoal e familiar de conversão quaresmal.
9. Pacientes na tribulação significa também acompanhar com ternura os que atravessam momentos de prova, sem julgamentos precipitados, sem respostas fáceis. A paciência é fruto do Espírito (cf. Gl 5,22) e amadurece quando aprendemos a permanecer ao lado de quem sofre, partilhando o peso da cruz.
10. Convido as nossas comunidades a fazer desta Quaresma um verdadeiro laboratório de sinodalidade: promovendo momentos de escuta comunitária, fortalecendo os conselhos pastorais, envolvendo os jovens, valorizando ainda mais o serviço feminino e integrando os mais frágeis. Que ninguém se sinta excluído do caminho comum.
11. A Virgem Maria, Mulher da escuta e da esperança, que guardava e meditava tudo no seu coração (cf. Lc 2,19), nos ensine a viver esta Quaresma como tempo de graça. Aos pés da cruz, Ela permaneceu firme na tribulação, confiando nas promessas de Deus. Que o seu exemplo nos sustente e inspire.
Queridos diocesanos, caminhemos juntos nesta Quaresma, alegres na esperança, pacientes na tribulação, perseverantes na oração e generosos na caridade. Que, pela conversão à escuta de Deus e dos irmãos, a nossa Igreja diocesana se torne, no Algarve, cada vez mais sinal vivo da misericórdia do Pai.
Saúdo-vos a todos com a minha bênção e a minha oração.
Dom Manuel Neto Quintas
Bispo do Algarve