O drama da prisão

«Ontem entrei na prisão. Detido, pela força da lei, e na sequência de um acto ilícito! E, agora, parece que o mundo caiu sobre mim; parece que todas as portas se fecharam; parece que o mundo desabou à minha volta; parece que mais nada existe, a não ser eu, indefeso, com paredes agora demasiado perto de mim; a abafar a respiração. Se olhar para cima, é parede que vejo; mas se olhar para baixo ou para os lados, a paisagem é semelhante, embora uma das paredes tenha uma porta que não posso abrir. E ficaram, para trás, nem sei quantas outras portas, porque nem as quis contar; mas ainda me lembro da trovoada das chaves e do terramoto das fechaduras – disso… nunca mais me esquecerei! E pensava e repensava, perguntava e tornava a perguntar, se o que eu estava a viver era um sonho com pesadelo, ou uma realidade tremenda que teria de aceitar…»
Este drama da prisão é mais frequente do que se possa pensar, e mais próxima do que possamos programar. Encontrei pessoas que nunca puderam ter tido nem sequer o mau sonho, de poderem ser “moradores” de uma prisão; e o drama repete-se, de cada vez que as notícias anunciam que mais umas quantas pessoas foram presas. E, depois de meses ou anos, a pessoa detida vai ser posta em liberdade; algumas vezes, cinco anos, dez anos, ou quinze, ou vinte… e lá chega a ordem de saída!
Mas, em tantos casos, o que deveria ser uma boa notícia, tantas outras vezes se transforma em enorme pesadelo: e agora?! Perdida a família, perdidos os amigos, perdido o emprego, perdidas as aptidões anteriores, perdido o jeito de andar na rua, perdida a naturalidade de olhar as coisas e as pessoas… que fazer? Para onde ir? Onde me refugiar? O que vou fazer ao rótulo que transporto, e que não comprei?
Estamos diante da realidade das prisões e das pessoas privadas de liberdade! Tanto a fazer, para evitar que gente, de todas as idades, entre numa cadeia e faça a dolorosa experiência da prisão; tanto a fazer, para evitar os dramas dos que deixam as cadeias, e não têm nem casa, nem família, nem amigos, nem trabalho! Em Portugal, o número de pessoas detidas cresce: ultrapassa as catorze mil! Estamos a atingir picos estatísticos pouco habituais entre nós. Enquanto alguns países encerram cadeias, nós abrimos ou ampliamos as nossas: e gera-se a pirâmide crescente, em espiral assustadora, que parece não ter fim à vista.
Prevenir a criminalidade, é tarefa urgente, e de todos: nem se diga, para tranquilizar ideologias, que é só na família que a educação não se faz bem: e a escola? E os meios de comunicação? E a rua? E, enquanto alguém cumpre uma pena de prisão, ainda que seja um desconhecido, deixar que a compaixão nos mobilize para o perdão, para a reconciliação, para a aproximação da pessoa privada de liberdade, da sua família, e mesmo das pessoas lesadas ou vítimas do crime.
As prisões, e as pessoas que nelas estão detidas, merecem uma atenção muito maior, de toda a sociedade; e, naturalmente, sem nunca dispensar os cristãos, porque esses sabem que, em cada preso, vêem e encontram o Seu Senhor e Mestre, que nos diz: «Estive preso, e viestes visitar-Me.»