PARA QUE SE SINTAM BEM-VINDOS
Vivemos a maior crise de refugiados na Europa desde os tempos da Segunda Guerra Mundial. Esta crise representa – já o disseram várias pessoas – um desafio para a Europa como comunidade de valores. Os valores que devem servir de inspiração à construção da unidade europeia são os das raízes cristãs da sua história, que estão na base do valor (partilhado por cristãos e não cristãos) do respeito pela dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais. Os refugiados que nos batem à porta fogem da guerra e da morte. Acolhê-los é uma exigência de amor cristão e de humanidade.
Trata-se de um auxílio de emergência, que não pode levar-nos a esquecer a necessidade de enfrentar a raiz do problema, que são as guerras de onde fogem estes refugiados, pois só desse modo pode terminar este êxodo.
Há, porém, quem veja neste afluxo de refugiados vários perigos. Um deles é o de perda da nossa identidade cultural europeia e cristã. Há, mesmo, quem fale em “invasão”. Ou quem sugira um acolhimento seletivo, limitado aos cristãos perseguidos pela sua fé (como são, na verdade, alguns destes refugiados).
Parece-me (e parece aos bispos portugueses, tal como parece ao Papa Francisco), pelo contrário, que a melhor forma de afirmar a nossa identidade cristã é dar testemunho do Evangelho («Pelas obras te mostrarei a minha fé» – diz a carta de São Tiago). A mensagem do Evangelho é a do amor universal, que não faz aceção de pessoas e que ultrapassa todas as barreiras, vai para além da família, da tribo, da etnia, da nação e até dos amigos.
Muito fraca seria a identidade cultural que fica em perigo pelo contacto com pessoas de outras culturas. Pelo contrário, esse contacto pode ser enriquecedor. A crise de identidade europeia e a infidelidade às raízes cristãs da Europa dependem dos próprios europeus, não de uma qualquer “invasão” externa.
Outro perigo invocado é o da infiltração de terroristas inspirados no fundamentalismo islâmico. Um perigo a considerar, mas que não pode servir de pretexto para recusar ajuda a estas pessoas, as quais, em grande parte, são, precisamente, vítimas da violência fundamentalista e dela fogem, sejam elas cristãs ou muçulmanas.
Diz-se que já temos muitos pobres e que há países com mais recursos para acolher estas pessoas. Mas a atenção a estes refugiados (com experiências ainda mais trágicas do que as que conhecemos entre nós) não é incompatível com a atenção para com os nossos pobres e sem-abrigo, como vem sendo afirmado pelas instituições que a estes se dedicam desde há muitos anos. E se é verdade que a Alemanha e a Suécia têm mais recursos do que nós, isso já não pode dizer-se do Líbano e da Jordânia, que acolhem atualmente mais refugiados do que toda a Europa irá acolher.
Portugal pode orgulhar-se de ter sabido acolher refugiados noutros momentos decisivos da sua história, como durante a Segunda Guerra Mundial e depois da descolonização.
Agora, a sociedade civil mobilizou-se de forma espontânea e generosa. Dessa mobilização nasceu a Plataforma de Apoio aos Refugiados (www.refugiados.pt), que congrega organizações cristãs, muçulmanas e aconfessionais. E a que também aderiu o Movimento dos Focolares.
Um primeiro passo a dar no âmbito do acolhimento destes refugiados é o da formação da opinião pública. Há que difundir uma cultura do acolhimento, para que estes refugidos se sintam bem-vindos no nosso país. A nossa revista quer dar o seu contributo nesse sentido.
Pedro Vaz Patto