Bispo do Algarve critica no Dia Mundial da Paz aumento da despesa militar

O bispo do Algarve criticou hoje o “aumento das verbas exigidas aos orçamentos dos países europeus em relação à despesa militar”.

“Se olharmos para aquilo que Portugal gastava cada ano e que vai passar a gastar é uma desproporção muito grande para fins militares. E é uma pena essas verbas não serem utilizadas para melhorar a saúde, a habitação, as escolas, para ir ao encontro de tanta dificuldade de tantas famílias que vivem até abaixo do limiar da pobreza”, lamentou D. Manuel Quintas na Missa a que presidiu esta tarde em Loulé no primeiro dia de 2026, o 59º Dia Mundial da Paz, no Santuário de Nossa Senhora da Piedade, popularmente invocada como «Mãe Soberana».

O bispo diocesano constatou que “a situação mundial atual é complexa” com “guerras que se prolongam no tempo, que se amplificam na destruição, que acentuam tensões geopolíticas, injustiças e polarizações sociais”. “Assistimos, igualmente, a discursos que fomentam o ódio e o medo do outro só porque é diferente de nós; presenciamos crises ao mais diversos níveis, também crises ambientais… um rol de situações que desafiam a nossa esperança e questionam o nosso desejo de paz. Cada dia somos confrontados com a triste realidade de tanta gente, que vive sob o peso da violência, da fome, do desespero, da morte. Verificamos, por outro lado, uma corrida às armas, cada vez mais sofisticadas e mortíferas”, prosseguiu.

Com base na mensagem do Papa para este Dia Mundial da Paz, intitulada “Rumo a uma paz desarmada e desarmante”, o bispo do Algarve lamentou que não haja “predisposição para desarmar o coração” e que, “por isso, se vai investir de modo desproporcional em armamento”. “Caminhemos rumo a uma paz desarmada e desarmante, pede-nos Papa Leão XIV”, referiu, lembrando que o pontífice utilizou aquela expressão na sua primeira intervenção na varanda da basílica de São Pedro, após a sua eleição.

D. Manuel Quintas destacou assim que “a verdadeira paz não se alcança com armas ou com a imposição da força, mas com o desarmar do coração, com a humildade, o diálogo e a reconciliação”. “É um convite a abandonar as «armas» do orgulho, do ódio e da indiferença, e a abraçar a vulnerabilidade do perdão e da compaixão. A história mostra-nos que as armas podem impor a submissão, mas não constroem a verdadeira paz. As armas nunca conseguem uma paz verdadeira, duradoura”, desenvolveu.

Lembrando que “o caminho da paz implica desarmar primeiro o “coração”, o bispo do Algarve deu um exemplo. “Quando nos dirigimos a alguém de dedo apontado ou de mão fechada, estamos a provocar que reaja de igual modo. Se nos dirigirmos de mão estendida para o erguer, se está caído no chão, muda tudo. Portanto, um coração desarmado é dirigirmo-nos aos outros não de dedo em riste, acusando alguém, às vezes até sentenciando. Isso provoca uma reação igual no outro”, constatou.

O bispo do Algarve disse então ser preciso “vencer as paixões que alimentam a discórdia, o egoísmo, a inveja e o rancor”. “A paz genuína é desarmada porque não se apoia na ameaça ou no medo; porque tem a coragem de quebrar o ciclo do ódio, surpreendendo com o perdão, o diálogo e a justiça. Desarmante porque vence com o poder do amor e da misericórdia”, complementou.

D. Manuel Quintas acrescentou que “a paz começa sempre em corações convertidos e exprime-se em gestos concretos”. “Quando escolhemos escutar/dialogar em vez de gritar; quando recusamos desumanizar quem pensa diferente de nós; quando promovemos o cuidado dos mais frágeis em vez da indiferença e da exclusão; quando educamos para a fraternidade e não para a segregação e o medo”, exemplificou, acrescentando: “a paz nasce quando deixamos que o rosto de Deus brilhe sobre nós. Onde Deus é acolhido, a violência perde espaço, perde sentido e começa a germinar e a crescer o dom da paz”.

Neste dia em que a Igreja celebra a solenidade litúrgica de Santa Maria, Mãe de Deus, e em que D. Manuel Quintas escolhe sempre por esse motivo o principal santuário mariano algarvio para presidir à primeira Missa do ano, o bispo do Algarve exortou ainda a olhar para Maria como “modelo luminoso da paz”. “Maria não empunha armas, não domina, não impõe. Através dela Deus entra na nossa história de modo insólito: não com o poder das armas, mas com a fragilidade duma criança indefesa. É assim que Deus escolhe transformar o mundo. Maria ensina-nos que a paz nasce da escuta da Palavra, da confiança em Deus e da disponibilidade para servir. Ao dar ao mundo o Príncipe da Paz, ela torna-se Mãe da Paz. Onde está Maria, Jesus está também. E onde está Jesus, a paz é possível”, referiu.

“Ao iniciar este novo ano de 2026, coloquemos sob o manto maternal da Senhora da Piedade todas as nossas esperanças e dificuldades. Maria, Mãe e Rainha da Paz, ensina-nos a sermos servidores da paz, desde o seu “sim” humilde e generoso ao projeto de Deus até sua presença constante junto ao seu Filho e aos Apóstolos, mesmo nas horas mais difíceis. Confiemos-lhe o mundo inteiro, as vítimas da guerra, todos os governantes, as famílias divididas, os jovens sem esperança. Peçamos-lhe que nos ajude a ser artesãos da paz, semeadores da paz, começando onde estamos. Seja ela a guiar-nos e a ensinar-nos a sermos construtores corajosos da paz nas nossas famílias, no nosso ambiente de trabalho, nas comunidades e na sociedade. Sob a sua proteção maternal, sentimo-nos fortalecidos na fé e na esperança para cultivar uma cultura de paz que seja desarmada – porque simples e humilde – e desarmante – porque vence pelo amor, pelo perdão e pela verdade”, prosseguiu.

O bispo do Algarve considerou ser preciso “rezar por um dom tão preciso e, simultaneamente, tão frágil” como o “dom da paz”. “Num mundo marcado por conflitos, divisões e incertezas, a procura da paz não é apenas um anseio, um desejo humano, mas um propósito e um dom divino. A nossa paz, a paz humana, é uma paz frágil porque se apoia na nossa fragilidade. A paz Deus é uma paz interior, que nos realiza plenamente, que é duradoura”, constatou.

Lembrando que o novo ano foi iniciado por todos com desejos mútuos de “esperança renovada”. D. Manuel Quintas exortou que todos continuem, “ainda imbuídos da espiritualidade e do dinamismo do Ano Jubilar” de 2025, encerrado no domingo passado, a ser “semeadores de esperança”. “Encerrámos o Ano Jubilar, mas a esperança continua e é importante que continue fazendo de cada um de nós semeadores de esperança no coração daqueles que vivem ao nosso lado”, pediu.

A Eucaristia no Santuário da «Mãe Soberana» foi ainda concelebrada pelo cónego Carlos de Aquino, pároco de Loulé, e pelos padres Carlos Matos, reitor daquele santuário, Fábio Pedro, natural de Loulé, e Henrique Varela, antigo pároco da cidade.

O Dia Mundial da Paz foi instituído, em 1968, pelo Papa São Paulo VI (1897-1978), e é celebrado no primeiro dia do novo ano.

Samuel Mendonça/Folha do Domingo
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