As limitações do egoísmo

Cón. Mário Tavares de Oliveira

O tratado da cegueira terá sido uma das obras mais bem conseguidas de José Saramago e que não decepcionou na sua versão cinematográfica.Numa sentida viagem, o autor faz-nos ver que a cegueira física leva à descoberta de coisas que  não víamos quando pensávamos que víamos bem. A cegueira leva à descoberta do outro porque a sua proximidade se torna um dom. O outro dá segurança e com ele, conseguimos dar mais um passo em frente. Descobrimos o conforto de darmos as mãos que, antes, quando pensávamos ver bem, já tínhamos esquecido. E, juntos, conseguimos vencer obstáculos que, de outro modo, seriam intransponíveis. Afinal, a maior cegueira é quando vemos e já deixamos de ver as coisas fundamentais.

Há poucos dias, a Assembleia da República discutiu e aprovou algumas alterações à lei do aborto.  No fim de contas, aprovaram-se coisas óbvias: Taxas moderadoras para quem pratica o aborto e uma consulta de psicologia que ajude a despistar as razões e as motivações da mulher que pretende recorrer ao aborto. Entretanto, a discussão no hemiciclo deixou bem patentes a cultura do individualismo incapaz de conceber um projeto de sociedade onde o bem comum seja a grande regra. O curioso é ver a transmigração dos ideais de esquerda. Na origem, estes propagavam o social, o comunitarismo, o sacrifício do individual a favor do coletivo.    Agora, a pretexto da afirmação dos direitos individuais, defende-se a supressão da nossa convivência responsável em que a minha liberdade individual acaba quando começa a liberdade do outro. O bem comum é sacrificado em favor do individualismo.

Ora uma gravidez é sempre um “nós” e um “eu”. Jamais se poderá passar por cima duma vida nova aniquilando-a, imaginando que não tem valor, para justificar uma liberdade individual. Trata-se duma aberração civilizacional que tem por trás a cultura do individualismo e não do bem comum.

Esta questão não é, primeiramente, um problema religioso. De facto, o aborto, antes de ser questão religiosa, é uma questão humana. A agressividade das discussões parlamentares vindas de certos círculos demonstraram até à sociedade que estamos num mundo cada vez menos humano. O “espetáculo” foi degradante e obedeceu à lógica já gasta: Resolver os problemas recorrendo a um problema ainda maior. Os problemas sociais devem ser resolvidos com respostas sociais e não pela via do aborto. Só a vida gera vida. A cultura da morte, mesmo quando é engalanada com o discurso das liberdades individuais, é uma das maiores afrontas a uma sociedade que quer ser mais humana e fraterna.

A vida é, sem dúvida, uma das questões mais sérias que temos de enfrentar no futuro. No presente é já uma apreensão a baixa de natalidade, a desertificação, a ruptura demográfica, todavia, estamos ainda e só no início dum percurso que, se continuar a pautar-se pela lógica da morte, não pode levar-nos a um estuário seguro. Claramente, a esperança está ameaçada e, sem novos caminhos, não podemos esperar a tão desejada regeneração da sociedade.

Só pela via dos valores humanos, corajosa e realmente assumidos, onde cada vida é acolhida com dignidade, estaremos à altura de defender o bem comum como a lei magna dos nosso viver responsável em sociedade.    

In Pórtico 24-07-2015