Medida larga, medida estreita
Como é oportuna para todos nós, no início deste novo ano pastoral, a palavra do Livro dos Números que a Igreja nos oferece como alimento na 1ª leitura deste domingo! Dois homens profetizam fora da Tenda da Reunião e Josué , cheio de zelo pelo cumprimento das normas estabelecidas, quer impedi-los. A essa atitude legalista responde Moisés: quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o Seu Espírito sobre eles!
Algo de semelhante vemos no evangelho de hoje: a mesma medida larga de Moisés traduzida nas palavras de Jesus: quem não é contra nós é a nosso favor! Esta medida larga do Senhor é para os de fora. Para os apóstolos, para os que andam com Ele, a medida é muito apertada, como vemos na severa advertência que lhe faz para não escandalizarem os discípulos, estes pequeninos que acreditam em Mim. Esta medida estreita aparece mais claramente formulada nas Suas palavras: quem não está contra mim, quem não ajunta comigo, dispersa (Lc. 11,23; Mt. 12,30).
Somos cristãos, somos católicos. Acreditamos em Jesus Cristo, estamos comEle, andamos comEle. Com que espirito? Seguimo-l’O incondicionalmente, ou ficamo-nos pelas fronteiras do que nos parece razoável? Ajuntamos com Ele e com Ele distribuímos, ou retemos os seus dons de forma egoísta? Pode acontecer que sejamos cristãos apenas por tradição ou por conveniência, para proveito próprio. Pode acontecer que estando na Igreja, fechados nos nossos esquemas e pensando apenas em nós próprios, sejamos motivo de escândalo para os mais débeis na fé. Isso acontece inevitavelmente se, como Pedro, temos em mente os pensamentos dos homens e não os de Deus, se queremos que o Senhor se adapte a nós, aos nossos esquemas humanos em vez de nos abrirmos à catolicidade do Seu amor misericordioso.
Se é assim que estamos na Igreja, ai de nós, os ricos, vestidos da púrpura e do linho fino próprios dos filhos de Deus, que nos saciamos no esplêndido banquete da Eucaristia; ai de nós se, como o rico avarento da parábola, somos motivo de escândalo para os muitos Lázaros que, à porta da Igreja, esperam alimentar-se das migalhas da nossa mesa! Ai de nós se temos para nós próprios a medida larga da graça barata, e para os de fora a medida estreita do legalismo e do moralismo farisaico! Ai de nós se expulsamos o Espírito Santo que é a alma da Igreja e, desejosos de mandar e não de servir, nos armamos em donos das paróquias, das comunidades e das instituições. Ai de nós se colocamos o tropeço da lei diante daqueles que se aproximam da Igreja para nos afirmarmos e defendermos a nós mesmos, e somos mansos e muito compreensivos para nós mesmos, exatamente ao contrário das palavras e do exemplo do Senhor Jesus Cristo! Para não sermos escândalo para os pequenos na fé convertamo-nos e sejamos violentos para nós mesmos. Para sermos mansos e humildes de coração para com os outros, aceitemos o jugo do Senhor e de vivamos, tanto quanto pudermos, a sua mesma vida e a Sua missão. Sem isso, sem nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus, seremos incapazes de profetizar, de anunciar o evangelho.
Que música poderá sair das cordas destemperadas de uma viola? Que evangelho poderá anunciar quem dele se defende? Que vida cristã poderá comunicar quem se contenta com ser mundano e pagão?Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o Seu Espirito sobre eles!
Este desejo de Moisés cumpre-se na igreja, naqueles que, convertendo-se a Cristo e recebendo o Seu Espírito, são o novo povo de Deus.
Todos nós que participamos da Nova Aliança, batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, somos membros deste povo de reis e sacerdotes, povo que tem a missão de anunciar ao mundo o Evangelho. A consciência da sublimidade desta missão leva-nos necessariamente a tomar para nós, tal como fez S. João Batista, a medida apertada e a porta estreita da humildade, aplanando o caminho para o Senhor e abrindo assim a porta larga da Sua misericórdia para os pequenos que, como Zaqueu querem ver o Senhor.
João Marcos, Bispo Coajuntor de Beja