O mapa do tesouro

1 - Os porcos não dão valor às pérolas. As pérolas não lhes servem para nada pois só lhes interessa o alimento que os engorda… para a matança. Nisto se resume a sua vida. E se, anestesiados e amputados da dimensão espiritual, nós víssemos reduzida a tão pouco a nossa existência? Se o milagre de estarmos vivos se transformasse para nós numa rotina cega e numa paixão inútil? Se os nossos anseios não se estendessem além daquela elementar satisfação que, uma vez atingida, nos deixasse encalhados numa vida sem horizontes? Tiremos os “se” porque, infelizmente, isto é real, está a acontecer hoje com muitas pessoas, nesta sociedade que é a nossa. Como escreveu Fernando Pessoa, neste nevoeiro, ninguém sabe que coisa quer, ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal, nem o que é bem (…)

Triste de quem vive assim, contente com o pequeno conforto de ter pão para a boca e televisão para se distrair, mas de costas voltadas para o grande desígnio do amor de Deus que tudo envolve e ilumina. Quem se interroga hoje acerca das questões básicas da vida humana? Qual é o sentido da nossa vida? Quem somos nós? De onde vimos? Para onde vamos? Onde está a felicidade?

Muitos dizem: Quem nos fará felizes? Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face (Sl 4,7)!

2 - Deus respondeu à súplica do salmista e fez resplandecer nas trevas a sua luz. No evangelho do próximo domingo o Senhor Jesus Cristo fará ressoar de novo aos nossos ouvidos o pregão das Bem-aventuranças, desenrolará perante os nossos olhos o mapa da felicidade e oferecerá de novo aos nossos passos o caminho da Vida. Como vamos recebê-lo? Será que temos ouvidos para ouvir e olhos para ver, será que temos pés capazes de andar? A nossa vida e a vida do mundo dependem do facto de recebermos o Evangelho com aquela fé que faz ouvir os surdos, dá vista aos cegos e faz andar os paralíticos.

Viver as bem-aventuranças não é algo que possamos alcançar com as nossas forças, mas para nós é que elas foram proclamadas por Jesus. O Sermão da Montanha não é um programa para elites, para candidatos a super-homens ou a heróis, pois é oferecido a todos, é boa notícia anunciada aos pobres, é evangelho de salvação para toda a humanidade. Não é utopia, é realidade a acontecer. Não o encaremos como um fardo, porque é graça, nem o cataloguemos como ideal, pois é, nada mais, nada menos, que a carne do Verbo de Deus. É o retrato de corpo inteiro do homem novo, redimido por Cristo, reconciliado com o Pai e com os irmãos, libertado do seu egocentrismo para poder oferecer-se, unido ao Senhor, pela redenção do mundo.

3 - Como escutas o Sermão da Montanha, a carta magna da vida cristã? Como o recebes? Como palavra de Deus que, pelo Espírito Santo, tem o poder de se cumprir em nós, ou como uma linda teoria que, na prática, não funciona? Não duvides de que se trata daquele tesouro escondido no campo da nossa vida, tesouro que Jesus nos revela e oferece, tesouro da nova justiça da qual não somos dignos mas indispensável para sermos pessoas felizes e para que a humanidade tenha futuro.

Verdadeiramente, felizes dos nossos ouvidos porque podem ouvir estas palavras de vida eterna, palavras que são espírito e vida, palavras criadoras e recriadoras que nos fazem antever os contornos da Nova Jerusalém que desce do céu, de junto de Deus, resplandecente da sua glória, envolvida no manto da salvação.

Recebamo-las como promessa e como semente, como anúncio daquilo que Deus quer realizar em nós, por obra do Espírito Santo. Recebamo-las como dom de Deus, fruto da Nova Aliança, e como programa da nossa vida de redimidos, membros deste povo de reis e sacerdotes que participam da mesma missão de Cristo. Recebamo-las com a exultação do Magnificat de Maria porque Deus é fiel e são perfeitas as suas obras, mesmo se as vemos apenas começando em nós. Finalmente, recebamo-las inteiras, sem as podarmos daquilo que nos parece exagerado ou impossível. Não as adaptemos à mesquinhez dos nossos esquemas pois elas têm a missão de trazer aos nossos corações a largueza do Reino de Deus. E tenhamos cuidado com as interferências estranhas que nos fazem, por exemplo, escutar miseráveis onde se diz pobres.

4 - Pobres. São eles os que mais facilmente se abrem ao Evangelho, como nos recordam, nas outras leituras deste domingo, o profeta Sofonias e o apóstolo S. Paulo.

Só permanecerá um povo de pobres…

Vede quem sois vós, os que Deus chamou. Deus escolheu o que é louco, o que é fraco, o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo (…) escolheu-nos a nós.

Queridos irmãos: vejamos com olhos de ver, corajosamente, o que éramos e somos ainda agora pelos nossos pecados, e escutemos deslumbrados o que havemos de ser, pela graça de Deus que tem o poder de nos transformar: bem-aventurados os pobres, bem-aventurados os humildes, bem-aventurados os puros de coração, bem-aventurados os misericordiosos, bem-aventurados os obreiros da paz, bem-aventurados os perseguidos. Bem-aventurados sois vós que escutais agora a palavra de Deus e aprendeis a pô-la em prática; bem-aventurados porque recebeis um Espírito que vos desinstala e põe a caminho para fazer de vós cidadãos do reino dos céus, filhos de Deus e herdeiros com Cristo.

+ J. Marcos, disponível em: http://igrejaemmovimento-gdl.blogspot.pt/2017/01/o-mapa-do-tesouro.html