QUARESMA: MAIS DO QUE UMA COISA RELIGIOSA
Tempos houve em que os princípios cristãos estavam enraizados no modo de viver da sociedade. A fé marcava o ritmo do tempo e os costumes eram moldados por tradições que se geraram pelos valores religiosos e espirituais. No passado, falar em Quaresma era invocar um tempo rico em sinais que nos aproximavam mais de Deus e uns dos outros.
Longe vão esses tempos. Hoje, a Quaresma parece estar reservada para uma pequena comunidade que não perdeu a consciência do seu compromisso cristão, mas o espírito quaresmal anda longe das preocupações da maioria que vai perdendo a memória das suas raízes cristãs. Reduziu-se a Quaresma a uma coisa religiosa, só para alguns, e vai-se perdendo a pedagogia salutar deste tempo que é mais do que coisa religiosa.
A Quaresma, com efeito, é a preparação para a Páscoa, ao longo de 40 dias, mas a sua proposta passa por reequilibrar os nossos comportamentos sociais, pelo perdão e pela fraternidade, pela partilha solidária e pelo abraço da fé. O caminho quaresmal, em última análise, visa o fortalecimento da fé mas, ao mesmo tempo, visa também a humanização da sociedade através de prácticas que convidam à união entre todos. Era um tempo de regrado onde se chamava a tenção para os excessos e se espiritualizava a vida.
Podemos opinar, com razão, que cada um é livre de praticar ou não uma religião. A verdade é que quanto mais o homem se vai afastando dos valores religiosos e espirituais mais distante vai ficando a sua capacidade de edificar uma sociedade mais humana e fraterna. Longe de Deus, ficamos mais longe uns dos outros e mais longe de nós mesmos. Quanto mais silenciamos os valores cristãos, mais vazios vamos ficando de ideais e sobe de tom a agressividade, o conflito e a angústia.
A desumanização da sociedade é um reflexo do vazio dos valores e duma espiritualidade autêntica. É fácil de adivinhar males ainda maiores no futuro próximo. Não é um mau agouro, antes, é uma leitura realista da história. Não se trata de sonhar com o regresso ao passado o que seria anacrónico, estéril e despropositado. Seria importante, isso sim, redescobrir a luz do evangelho para o nosso tempo que é rico de tantas coisas, mas que perdeu o sentido da sua história. A Quaresma deveria ajudar-nos nesta redescoberta.
Pretender que a religião seja coisa do passado é enterrar também toda a riqueza que nos pode vir do anúncio do evangelho. A verdade é que a cultura da morte vai subindo de tom. Depois de termos uma lei que permite matar vidas humanas no seio materno, já a opinião pública se prepara para aceitar que se acabe com a vida quando ela começa a ser um peso e a parecer um estorvo. Em nome dum falso humanismo, provoca-se a morte em vez do abraço e do acolhimento. O mais grave é que vamos deixando de pensar como humanos para nos remetermos à lógica da eficácia ex-máquina.
Perante estes cenários a que não são alheias as guerras iníquas, as desigualdades gritantes, os refugiados em desespero, a cultura da morte instituída, apetece perguntar: Faz falta ou não o espírito quaresmal à nossa sociedade?
Por estes dias, um Centro Social Paroquial de Viseu foi multado em milhares de euros por dar de comer a mais seis carenciados do que a lei prevê. Soubemos da notícia porque o pároco recorreu para os tribunais mas sei de outros que também foram multados pelos mesmos motivos mas não saltaram para as redes. Chegámos a isto: já não se pode ser solidário, nem há espaço para a caridade fraterna. A sociedade moderna que quis substituir a religião pelos direitos humanos enferma já de falta de humanismo. As leis do nosso país já multam as instituições que matam a fome para além do “previsto”!
Na Quaresma, o que está mesmo em questão é o projecto humano de Deus! É um tempo de ir ao encontro do coração de Deus para que o homem seja mais homem!
Padre Mário